NASCIMENTO


Noite ainda, quando ela me pedia
Entre dois beijos que me fosse embora,
Eu, com os olhos em lágrimas, dizia:
Espera ao menos que desponte a aurora !
Tua alcova é cheirosa como um ninho ...
E olha que escuridão há lá por fora !
Como queres que eu vá, triste e sozinho,
casando à treva e o frio de meu peito
ao frio e a treva que há pelo caminho ?
Ouves? É o vento! É um temporal desfeito !
Não me arrojes à chuva e à tempestade !
Não me exiles do vale do teu leito !
Morrerei de aflição e de saudade ...
Espera até que o dia resplandeça,
aquece-me com a tua mocidade !
Sobre o teu colo deixa-me a cabeça
repousar, como há pouco repousava ...
Espera um pouco, deixa que amanheça !


E ela abria-me os braços, e eu ficava.


E, já manhã, quando ela me pedia
que de seu claro corpo me afastasse,
eu, com os olhos em lágrimas dizia:
Não pode ser ! Não vês que o dia nasce ?
A aurora, em fogo e sangue, as nuvens corta ...
Que diria de ti quem me encontrasse ?
Ah ! nem me digas que isso pouco importa !
Que pensariam, vendo-me, apressado,
tão cedo assim, saindo a tua porta ?
Vendo-me exausto, pálido, cansado,
e todo pelo aroma de teu beijo
escandalosamente perfumado ?
O amor, querida, não exclui o pejo ...
Espera ! até que o sol desapareça.
Beija-me a boca, mata-me o desejo !
Sobre o teu colo deixa-me a cabeça
repousar, como há pouco repousava !
Espera um pouco, deixa que anoiteça !


E ela abria-me os braços, e eu ficava ...


- Olavo Bilac -





Fale Comigo

Salvar em Favoritos

Voltar






Sonia Soares Copyright © 2006
Sob registro loucadepaixao.com
Webmaster Sonia Soares| Rio de Janeiro| Brasil